:: o oceano falou comigo e nunca mais fui o mesmo ::

Este espaço foi criado com o intuito de mostrar tudo aquilo que se passa na cabeça de um surfista. Desde pensamentos, frases, sentimentos e tudo aquilo que tá presente na vida de cada um de nós. A busca incessante do equilíbrio.
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:: Quinta-feira, Maio 13, 2004 ::

Como jornalista não poderia deixar de comentar sobre o assunto. Quer dizer, melhor eu ficar quieto, senão corro o risco de ser expulso de algum lugar.

O texto a seguir é do jornalista Sérgio Rodrigues.

Comprovado: Lula bebeu

Estou morrendo de vergonha. O Brasil acordou invocado, tomou todas, começou a brandir uma garrafa quebrada e, espalhando perdigotos num raio de dezenas de milhares de quilômetros, expulsou do botequim o jornalista americano Larry Rohter, aquele que disse que Lula aprecia um goró. Os porres autoritários, como se sabe, revelam monstros ocultos: o tiranete de filme de Woody Allen sob o terno impecável do estadista, o paiseco burlesco sob a nação que se faz respeitar, o rancor mortal de quem no fundo se julga mesmo um farrapo humano no lugar do equilíbrio superior dos que se garantem. Nessa visão dupla revela-se a distância imensa ¿ provavelmente intransponível ¿ entre o Brasil que é e o Brasil que um dia pareceu que ia ser.

Como se sabe, o correspondente do ¿New York Times¿ cometeu o crime de escrever em seu jornal que nosso presidente da República bebe demais. Talvez tenha bebido ele, o correspondente, para decidir que uma matéria tão mal apurada, tão pouco sólida ¿ porque se fosse líquida, já viu ¿ seria enviada para a redação em Nova York. Não, não é verdade que o Brasil esteja morrendo de preocupação com a possibilidade de Lula ser alcoólatra como Bush. O presidente aprecia uma caninha, todo mundo sabe, mas se isso for um problema, será o menor dos que nos afligem. Acho que poucos brasileiros discordariam dessa afirmação.

Por exemplo: o primeiro escalão do governo federal acaba de dar uma prova de total incompreensão sobre o que seja democracia, de desprezo aos fundamentos dela. Partindo de um governo ¿de esquerda¿, um gesto como esse nos dá mais dor de cabeça do que todos os Underbergs de todos os bares do país.

Rohter fez bobagem e talvez já saiba disso. Se o presidente não fosse tão precipitado no cancelamento de vistos de estrangeiros por crime de opinião, o jornalista americano ficaria de crista baixa por um tempo, o que seria ótimo. Quando não está de crista emplumada, dizem que Larry Rohter exerce ¿ exercia? ¿ com competência a função de correspondente do principal jornal americano num dos principais países do Terceiro Mundo, uma função da qual, como se sabe, pitadas de arrogância e preconceito nunca estão inteiramente ausentes. Paciência. O fato é que o cara ficaria por aí, ouvindo uns telefones lhe baterem na cara, e talvez aprendesse algo sobre a natureza das piadas no Brasil. A ambivalência da fofoca. A importância profunda do rito de beber com os amigos para celebrar a bênção de estarmos vivos. Bobagens assim.

Expulso do país, Larry Rohter chegará aos Estados Unidos como mártir da liberdade de expressão ¿ coisa que, atenção, ele é mesmo, transformado que foi pela estupidez do governo brasileiro de bobalhão em herói. Pô-lo para correr é um erro dos grandes, um ato de gente despreparada para o exercício do poder, um mico de repercussão mundial. Parece até que, no fim das contas, o jornalista tinha sua dose de razão e a bebida é mesmo um problemaço, se não exatamente do Lula, do governo Lula. Isso explicaria muita coisa, inclusive essa ressaca nacional que não passa. E, pensando bem, o André Singer não arrasta um pouco a língua? O Congresso Nacional certamente vem tomando atitudes de uma sem-vergonhice que só a porranca mais fenomenal seria capaz de desculpar. Devem ter bebido todos até cair. Ou até o Brasil cair ¿ no ridículo de cassar a voz de um jornalista que desagradou o general, perdão, o metalúrgico. Acho que estou precisando de uns tragos.

:: 3:41 PM ::

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:: Quarta-feira, Maio 12, 2004 ::

Surfe, namorada e uma tragédia

Apareceu um belo romance de formação na praça: "Longe da Água", de Michel Laub. Romance de formação é aquele em que se narra a juventude e a entrada na maturidade de alguém, o processo doloroso e inescapável pelo qual todos nós passamos, pagando o preço de sair de um mundo mais leve, descompromissado e cheio de novidades para entrar num ambiente muito mais cinza, regrado e rotineiro.

Não que a gente não sofra na juventude. No caso deste romance, o protagonista vive uma duríssima perda, a morte trágica de um grande amigo, um amigo dos 15 anos, confidente, parceiro, rival amistoso. As circunstâncias da morte são significativas: um grupo de amigos está surfando e, por um misto de fatalidade do destino, imprudência e falta de lei, um deles acaba enredado numa rede de pescador.

O narrador rememora essa dolorosa passagem e tudo que a cerca, incluindo uma avaliação das relações com os pais e com uma menina muito especial.

Não é uma daquelas narrativas em que o leitor logo percebe que se trata menos de literatura do que de lição de moral. O livro do Michel Laub é arte literária mesmo.

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Longe da Água
Autor: Michel Laub
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 28


:: 8:43 PM ::

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Ode à mulher

Texto de Rita Lee

"Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os dois irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse
se tinha ou não o selo da honra.

Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou "vestígios himenais dilacerados", e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente
esqueceu, morrendo tuberculosa.

Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres. Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular,moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas.

Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte-americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens.
E, com isso, Barbies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres - as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima.

Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composta de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo E no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo. Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil
de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência.

As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os
exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência.

É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas. São as mulheres que imporão um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e doçura de seus corações.

Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda. E meu peito, não é de silicone; sou mais macho que muito homem".

:: 7:46 PM ::

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:: Segunda-feira, Maio 10, 2004 ::

"A pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa não é quando seu projeto não dá certo, seu plano de ação não funciona ou quando a viagem termina no lugar errado. O pior é não começar. Esse é o maior naufrágio."

Amyr Klink

:: 3:57 PM ::

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:: Domingo, Maio 09, 2004 ::



:: 3:22 PM ::

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